Inanimados (?), o curta!

Olha só que legal. Eu recebi há alguns dias uma mensagem aqui mesmo no blog do Vagner Silva, 14 anos, estudante do SESI. Ele entrou em contato porque teria uma mostra de curtas no SESI e ele queria participar, fazendo um curta baseado no meu texto “Inanimados (?)”, publicado na web.

Com muito gosto aceitei, e o resultado você confere aqui:

 

 

Legal, né? Não é a primeira vez que me procuram para utilização de um texto meu.

O Tristão ganhou sua versão em carne e osso realizado pelos alunos da faculdade de comunicação da UNIMEP.

Com o roteiro escrito por mim, o curta do Tristão mostra a origem do personagem, nunca publicada.

Para quem ainda não viu, segue abaixo!

 

 

É muito legal a iniciativa dos estudantes procurarem textos de autores para produzirem, é uma das melhores formas de reconhecimento do nosso trabalho.

Uma ótima forma terminar uma semana.

 

Para quem ficou curioso com o conto, aqui está na íntegra:

 

Inanimados (?)

Estevão Ribeiro

Quando pequeno, eu tive um urso que levava para todo o canto. Neno, o nome do encardido bichinho.

Um dia, fatalmente, mamãe o apanhou, dizendo que iria lavá-lo e o jogou fora, me trazendo pequenos soldadinhos de plástico, mas não conseguia esquecer o Neno.

Eu chegava a tratar aquele ursinho como gente, conversando com ele sobre os problemas da escola. Era um irmão mais velho, só que menor e mais sujo do que eu.

A minha falta de amigos na infância e na adolescência só me fez constatar que meu único amigo era um pedaço de pano. Por isso fiz o que fiz.

Era um feitiço fácil, dado o tempo que eu havia me preparado para realizá-lo: Transformar meu ursinho – recuperado há muito custo do lixo e escondido por uma vida inteira para este momento – num amigo de verdade, vivente.

Concentrei todo o poder da minha energia vital na minha mão, sobre o meu querido ursinho de pelúcia, deitado num pequeno altar de madeira do meu quarto, num apartamento em Urca, pedindo para que minha pequena cria, meu companheiro de uma vida, me sentindo o próprio “Dr. Frankenstein”, ganhasse vida. Segundos depois caio esgotado no chão e apago. Não sei precisar quanto tempo fiquei desmaiado até ser acordado pelo meu amigo urso. Sorrio surpreso e orgulhoso do meu feito, afinal, eu consegui!

– Tire esse riso bobo da cara, seu idiota!

– E ainda fala! – Exclamei surpreso.

– Você tem sorte de eu não falar antes! Não imagina como você é chato, meu rapaz! Além do mais, você nunca soube me tratar direito! É um egoísta, e o pior foi ouvir suas lamúrias por uma parte in-ter-mi-ná-vel de sua vida! Você não sabe como quatro anos podem parecer uma eternidade do lado da pessoa errada!

O que o maldito – sim, maldito! – urso falou me ferveu o sangue!

Minha vontade era de apertar aquele pescoço de pelúcia, mas será que ainda era pelúcia? Haveria carne naquele odioso corpo?

Eu estava disposto a cumprir minhas ameaças, mas no primeiro impulso percebi que estava preso.

– Você me amarrou, seu puto!

– Eu não! Foram aqueles caras ali!

Como eu disse, era um feitiço fácil, dado o tempo que eu havia me preparado para realizá-lo. Talvez eu tenha me preparado por tempo demais.

Dezenas dos meus bonecos, cuidadosamente guardados na estante, longe de meu sobrinho destruidor e seus malditos amiguinhos, não estavam lá. Uma olhada rápida para o chão denuncia a localização não só dos bonecos, mas das minhas estatuetas e de tudo que se pareça animal ou humano: no chão do meu quarto, me cercando, indefeso amarrado com lençóis.

– Mas… Eu não entendo! Por que vocês estão fazendo isso comigo?

Em meio a gritos e evidenciava desordem total daquele quarto, uma voz se fazia ouvir:

– Viemos trazer um pouco de justiça, carcereiro!

Eu tento localizar entre aqueles amaldiçoados bonecos o autor daquela frase. Olho de um lado ao outro, vejo meu Hulk de quase30 centímetrosdestroçando um boneco que não consigo mais reconhecer; dois cavaleiros me apontam suas espadas, que não sei se eram de plástico ou de metal, mas não gostaria que me espetassem para saber.

Assusto-me quando uma figura bandeirosa com um escudo pula em meu joelho e aponta o dedo na minha cara. Meu Capitão América está liderando a rebelião. Quem mais poderia ser? Ainda bem que eu não comprei um Superman…

– Você nos deixou trancado naquela estante cheirando a verniz por muito tempo, meu jovem! Pagaremos na mesma moeda! – Disse o metido de escudo, no meio dos gritos de luta. – Avante, amigos!

Com um pouco mais de força consegui me soltar dos lençóis e comecei a empurrar os bonecos com os pés. Derrubei Darth Vader, vibrava por cada um dos monstrinhos que eu apertava contra parede. Desmembrei o meu querido urso, mas fui surpreendido pelo Gato Guerreiro pulando no meu pescoço. He-Man dava a vitória como certa, pelos poderes de Grayskull, é claro. Estava entre meus alívios também não ter comprado o Thor.

Os malditos e caros bonecos me cercaram, ficando todos em cima do tapete. Batman percebeu a minha risada sacana.

– Saiam do tapete, disse o morcego, pulando para fora.

Todos, exceto o vigilante de Gotham, foram pegos quando enrolei o tapete em cima deles.

– Desista, Roberto! Somos muitos!

– Até onde eu sei, “Batman”, eu não tenho mais miniaturas.

Um ar gelado percorreu minha espinha quando olhei para aquele homem vestido de morcego. Ele estava sorrindo.

– Eu sei que não tem. Mas já olhou pela janela?

Ainda com o tapete cheio de criaturas nas mãos, fui para janela.

Olhei para baixo e vi cachorrinhos com molas no meio, bichos de pelúcia, Power Rangers e outros bonecos desfigurados por crianças subindo o prédio em meu encontro. Eu jogo o tapete e derrubo um tanto na calçada da Urca.

– Essas aberrações não vão me pegar, Batman. – disse enquanto pegava livros para jogar nos bonecos que sobraram. – Tenho munição suficiente para derrubar quem se atrever a escalar meu prédio.

O pequeno Batman funde-se às sombras do meu guarda-roupa. Mesmo concentrado jogando livros nos bonecos, que resistiam bravamente, sentir a satisfação do morcego ao falar:

– Tudo mesmo?

A pergunta parecia idiota, mas ele parecia falar sério. Olhei mais uma vez pela janela, varrendo toda a área. Foi então que olhei na direção do Corcovado e não vi nada. E o que me assustou foi exatamente isso.

– Cadê o Cristo?

Na praia de Urca estava a minha resposta, em movimento, ameaçadora, vindo em direção ao meu apartamento, num grito gutural:

– Papaaaaaaaaiiiiiiii!

Eu ainda podia ver Tiradentes, Marechal Teodoro e uma escultura engraçada que mal parecia um homem. Minha noite não seria fácil…

3 Respostas para “Inanimados (?), o curta!

  1. talkativebookworm

    Olha, uma das coisas mais bacanas sobre isso é que foram iniciativas completamente espontâneas, sem ser sugestão formal da escola, universidade ou do SESI, sinal que você atinge as pessoas com o que você faz.

    Parabéns, amor!

  2. Nossa que legal Estevão, parabéns!

    Tem muita coisa oba ainda te esperando pode escrever.

    Um ótimo domingo!

  3. Nossa, que chique, gostariaa de dar meus parabens ao Vagner Silva e queria perguntar se ele so vai fazer esse video ou mais, gostaria que vc postasse mais videos desse menino que ele é muito talentoso para a idade dele num é ? Muito bom mesmo

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